Algumas Considerações Sobre Radioactividade Em Águas

João Quintela de Brito

O homem está exposto naturalmente a radiações ionizantes devido a um enorme número de fontes. Nelas se incluem os raios cósmicos e os radionuclidos naturais no ar, no solo, na comida, etc. , e até na água de beber.

A presença de radioactividade natural, na água, há muito que foi constatada.

Os radionuclidos naturais quando inalados ou ingeridos, são distribuídos entre os órgãos do corpo, de acordo com o metabolismo do elemento envolvido e os órgãos, que tem sensibilidades diferenciadas, aos diferentes tipos de radiação.

Não existe em Portugal, que seja do meu conhecimento, nem mesmo na restante Europa, regulamentação específica, sobre" radioactividade em águas de beber".

Todavia, tal não sucede nos Estados Unidos da América do Norte. Por necessidade metodológica, vamos referir algumas fases que julgamos marcantes da evolução do sistema legislativo e regulamentar que se observou naquele País e que poderá eventualmente vir a ter interesse ao longo deste trabalho, ou para o fim que o mesmo se propõe atingir.

Em 16 de Dezembro de 1974 o Congresso Americano obteve a aprovação da Lei Pública 93-523 conhecida como " Safe Drinking Water Act" ( SDWA) .

Esta Lei foi posteriormente melhorada em 16 de Novembro de 1977 ( Lei Pública 95-190), em 6 de Setembro de 1979 ( Lei Pública 96-63 ) e posteriormente em 5 de Dezembro de 1980 ( Lei Pública 96-502)

A finalidade do SDWA era melhorar os serviços públicos de saúde a fim de assegurar, que ao público seria fornecida água de beber em condições de segurança, consideradas aceitáveis.

O capítulo 1412 do SDWA instruía a "Agência Americana de Protecção do Meio Ambiente" no sentido de propor e promulgar primeiramente os regulamentos provisórios e a regulamentação já revista para constituintes perigosos na água de beber, que incluía os orgânicos, os inorgânicos, e os microorganismos e ainda os radionuclidos.

A EPA recebeu mesmo instruções específicas do Congresso para trabalhar com a Academia Nacional de Ciências (NAS ) ou com outra entidade equivalente, para proporem para os contaminantes níveis máximos recomendáveis, tendo em vista sobretudo os poluentes indesejáveis na água de beber, como uma parte da regulamentação já revista.

Tais limites foram e são baseados nos efeitos para a saúde humana e tomaram em consideração entre outros aspectos:

-A existência de grupos de indivíduos, ou mesmo indivíduos isolados da população, que são mais susceptíveis aos efeitos adversos para a saúde, do que o são, os adultos tidos como saudáveis .

-A exposição inevitável a outros contaminantes diferenciados dos da água de beber (incluindo exposições na comida, no ar ambiente e nos postos de trabalho) e a consequente carga corpórea resultante dos mesmos.

Efeitos sinergéticos resultantes da exposição a, ou à interacção de dois ou mais contaminantes.

No sentido duma dinâmica legislativa assiste-se em 14 de Agosto de 1975, à propositura da EPA e à feitura de regulamentos provisórios primários relativamente à radioactividade na água de beber .

Os primeiros regulamentos nacionais americanos. mas de carácter ainda provisório, dizendo respeito à água de beber para radionuclidos, foram promulgados na sua forma final, segundo cremos em 9 de Julho de 1976.

Cada País, procura ou tem, ou teve, circuitos de distribuição de produtos essenciais e consequente abastecimento , de acordo com as suas necessidades, sua formação ou até resultante da harmonia estrutural , que no caso de Nações mais antigas, determina uma distribuição por vezes muito mais racional que eventualmente se poderá supor, numa análise rápida em que as grandes superfícies dominam, e a que só em momentos de crise se lhes poderá dar o seu real valor.

As águas minerais portuguesas são, sem sombra de dúvida, de grande qualidade, tornando-se mesmo bastante agradáveis para todos nós como bebida.

A título de curiosidade, e sem referirmos a água em questão vamos inserir o que o Dr. J. Weil médico assistente de um francês, dizia ao seu colega português, numa carta datada de 6 de Junho de 1901.

- " Honoré confrère:- Je viens demander a vous Eaux pour mon client un bénèfice que ne lui ont point donnè les cures repetées ces dernières années soit à Vichy soit à Carlsbadt.

Je compte sur vos Eaux en raison du grand bien qu’on m’a dit d’elles dans la cure des Hepatites des pays chauds et des Hepatites d’origine paludéene.

Je compte egalement sur vos meilleurs soins et votre bonne direction.

Je vais doc vous relater très succintement mais aussi trés explétivement l’etat de mon client..."

Há, eventualmente países, que fazem o seu circuito de destribuição mesmo o referente a medicamentos, em estabelecimentos não específicos, ao contrário do que se passa connosco, em que felizmente, no nosso modesto ponto de vista, os medicamentos são só vendidos nas farmácias.

Antigamente e no tocante às águas minerais, havia mesmo uma certa parcimónia na sua prescrição e no seu consumo.

Lembro-me, que na minha terra natal, Abrantes, quando se ia a uma das duas farmácias na altura existentes, comprar uma garrafa de água mineral, ouvir dizer, de gente autorizada, "... deve tomar uma colher de sopa "...

É possível que se estivesse ainda na fase em que o radioactivo era panaceia para todos os males e que sendo à época, as embalagens etiquetadas com as palavras "radioactivas" e "fortemente radioactivas", se tomassem as precauções que o saber aconselhava, devido certamente a já ter despontado um certo temor, fazendo generalizar uma certa ponderação que o senso comum já recomendava, sem quaisquer sintomas alarmistas.

Tenho reparado quando me desloco a fazer compras no que agora se denominam " grandes superfícies", que há hoje uma grande proliferação de águas minerais, algumas com o nome em letras visíveis, do super mercado onde são vendidas, e outras, de origem estrangeira.

Numa síntese, porventura muito modesta e até mesmo muito incompleta, podemos dizer que uma água mineral natural é considerada como sendo bacteriologicamente pura, tendo por origem um lençol de água ou um jazigo subterrâneo e proveniente de uma nascente explorada através de uma ou mais emergências naturais ou perfuradas.

Quando engarrafada, a sua rotulagem deverá incluir igualmente as seguintes menções obrigatórias:

A da composição conforme aos resultados oficialmente reconhecidos de...( data da análise), e a da da composição analítica dos elementos característicos

Não obstante as águas minerais naturais se distinguirem claramente das águas de beber ordinárias, não impede que se possa eventualmente considerar muito útil que sejam ou venham a ser, objecto de cuidadoso controlo no que diz respeito aos possíveis contaminantes, ainda que intrinsecamente a sua natureza, seja caracterizada pelo seu teor em minério, oligo-elementos ou outros constituintes e, eventualmente, por determinados efeitos.

Pela sua pureza original, tendo ambas as características permanecido intactas devido à origem subterrânea dessa água que a manteve ao abrigo de qualquer risco ou poluição, não impede que possam eventualmente ser objecto de cuidadoso controlo no que diz respeito a vários elementos de natureza diferenciada, caso haja legislação específica para o fazer.

Assim afigura-se-me que se torna importante tecerem-se algumas considerações sobre a ocorrência de isótopos de Ra, Rn e U, na água de beber.

O Ra tem dois isótopos naturais que são de considerar na generalidade dos casos no que diz respeito ao abastecimento público, em abstracto, e sem haver particularização pontual desta ou daquela região, deste ou daquele País.

O Rádio 226 é obtido do decaimento do 238 U e é um emissor a com uma semi-vida de 1.622 anos.

Duma maneira geral, quando nos referimos ao Rádio estamos por via de regra a reportarmo-nos ao isótopo atrás referido.

Tem sido quantificado em muitas zonas de abastecimento público, em certos Países.

O outro isótopo, 228 Ra é obtido directamente pelo decaimento do 232Th ( dotado duma grande semi-vida) e é um emissor b fraco caracterizado por uma semi-vida muito mais pequena do que o seu ascendente ( 5,7 anos).

Ainda que a sua ocorrência não seja bem conhecida, há ainda um terceiro isótopo do Ra, o 224Ra, com um semi-período de 3,64 dias.

A EPA, "US Environmental Protection Agency" estabeleceu regulamentos provisórios em 1976 para níveis máximos de radioactividade na água de beber...

Como já tivemos ocasião de referir, ao iniciarmos estas considerações, os radionuclídos naturais, quando inalados e ou ingeridos são distribuídos entre os órgãos de acordo com o metabolismo do elemento envolvido e os órgãos que têm sensibilidades diferenciadas aos diferentes tipos de radiação.

Não podemos deixar de fazer algumas referências a certos tipos de malignidades que se crêm ser induzidas pelos isótopos de Ra no Homem.

Para doses baixas e médias, resultantes da deposição interna de Ra, no corpo humano, o dano biológico mais severo é o determinado pelo aparecimento de cancro que aparece afectando o tecido do esqueleto.

Ao 226Ra , atribui-se-lhe a indução de dois tipos específicos de malignidade:- Sarcomas ósseos e carcinomas da cabeça.

A título de curiosidade referimos que das 3.700 pessoas que nos Estados Unidos da América do Norte estiveram expostas ao 226Ra e ao 228Ra, como foi o caso dos pobres pintores de mostradores luminosos que incorporaram, mau grado seu, Ra, no seu corpo e o de doentes a quem foi administrado o elemento em questão, por prescrição médica, e ainda outros indivíduos que por outros meios, incorporaram Ra, foram observados e recenseados até 31 de Dezembro de 1982 um total de 83 casos de sarcoma ósseo e 36 casos de carcinoma da cabeça.

Em oposição, ao referido anteriormente não foram ainda observados carcinomas da cabeça em 2324 doentes alemães, que foram sujeitos a rigorosa vigilância médica, seguidos portanto de perto, e a quem foi injectado 226Ra não obstante 55 tivessem desenvolvido sarcomas ósseos.

De modo semelhante, não foram observados carcinomas da cabeça em pessoas inteiramente contaminadas com 228Ra, excepto no caso da dose atribuível ao 226Ra ter sido considerada elevada.

Isto sugeriu a considerar-se, que quando o 226Ra decai para o 222Rn no interior do corpo humano, a acumulação de 222Rn que é um gás, nas cavidades da cabeça, funciona como sendo o maior indutor destes carcinomas.

Para o 228Ra e 224Ra puro, que não dão origem à produção de 222Rn ( que como se disse é um gás) , o risco de carcinomas da cabeça é tomado como trivial, comparado com o risco de sarcomas ósseos.

Para emissores a depositados no tecido ósseo, o risco de radiação induzir leucémias no homem tem sido considerado insignificante, relativamente ao sarcoma ósseo.

Numa população fixa de 2940 homens e mulheres que trabalharam com Ra, como foi o caso de pintores de mostradores luminosos, antes de 1970, houve 63 casos de sarcoma ósseo comparados com um caso esperado naturalmente , em contraste com 10 casos de leucémia observados, comparada, para 9 casos esperados naturalmente.

Além disso, 4 das 10 leucémias observadas eram leucémias linfocitárias crónicas, um tipo que não houve evidência de ter aumentado, em estudos efectuados a pessoas afectadas com Ra.

Não faz sentido terem-se feito considerações relativamente aos elementos que já referimos, e não as fazermos no tocante ao Radão, ou Radon, como muitos Académicos lhe chamam.

O Radão, tal como já foi referido anteriormente é um gás nobre, portanto inerte, solúvel na água sendo a sua ocorrência controlada por variáveis físicas, tais como a pressão, temperatura, emissividade de Rn das rochas, assim como pelo tempo e pela geoquímica dos seus progenitores Ra 226.

A actividade elevada deste gás está associada com as rochas graníticas, minerais de Urânio , etc.

A ocorrência de Rn na água, é controlada pela concentração química de Rádio no solo hospedeiro da rocha e pela emissividade do Rn na água.

A condição física da matriz da rocha parece desenpenhar um grande papel na produção de Radão sendo talvez mais importante do que a concentração do ascendente Ra.

Encontra-se em quase todos os locais e algumas vezes ocorre naturalmente em elevadas concentrações que excedem, ou são fracções significativas do que está regulamentado, relativamente à exposição a que um trabalhador, profissionalmente exposto está sujeito.

Em sentido lato, podemos dizer que há dois isótopos de Rn, com semi-vidas suficientemente longas, para serem considerados como radionuclidos importantes, relativamente à água de beber.

O primeiro, é o 222Rn que é um descendente do 226Ra , chamado como já se disse Radão ou "Radon", e tem uma semi-vida de 3,84 dias.

O segundo , 220Rn, dotado duma semi-vida de 56 segundos é descendente do 224Ra, e que foi historicamente apelidado de "Toron ou Torão ".

O tempo que decorre entre a captação, ou melhor dizendo entre a produção e o consumo da água, de poucas horas, até poucos ou muitos dias e considerando o decaimento, mercê da sua semi-vida, faz com que nalguns casos e pelas razões referidas, não haja evidência de Radão, quando se pretende quantificá-lo não havendo mesmo evidência dele.

O Radão 222, que passaremos daqui em diante a referir simplesmente por Rn, é transportado como anteriormente já se referiu pela água e pode contribuir para as exposições a que o público em geral, fica sujeito, exposições por ingestão que se traduziriam na exposição do sistema digestivo e dos pulmões, considerando que o Rn se irá libertando da água e irá também irradiar o pulmão a par de outros mecanismos.

A título de curiosidade, diremos que em oposição ao que sucede nos Estados Unidos da América do Norte relativamente aos demais radionuclidos , não há propriamente legislação para o Rn na água, talvez devido à razão já apontada, anteriormente ainda que estudos numerosíssimos sobre doses devidas à ingestão e à inalação tenham sido e sejam feitos.

Relativamente ao Rn no ar, e nas minas tal já não sucede.

É muito importante ter-se em consideração que o Radão é solúvel nos fluidos do corpo humano e nas gorduras, apresentando pois um perigo potencial para o corpo inteiro.

O radão na água, apresenta-se como contribuindo duplamente para a exposição de indivíduos, por ingestão, directamente da água que se consome, e pela exposição devida à inalação quando o Rn emana, isto é se liberta da água.

Em termos de síntese, e para não nos alongarmos muito com considerações por ventura pouco relevantes para o fim que nos propuzemos atingir podemos dizer que a exposição ao Rn da água de beber é significativamente mais importante no

tocante à inalação do que à ingestão e consequentemente o pulmão é inevitavelmente o órgão mais atingido.

Ao tentarmos terminar estas considerações, achamos que se torna, necessário, ainda que duma maneira bastante simples, referir algo sobre o Urânio dada a sua grande ocorrência entre nós.

Enquanto que o risco suscitado pelos isótopos do Ra, se baseia, mau grado o seu processo histórico, em estudos relativos à toxicidade já observada no Homem e

podendo mesmo ser expresso em m Bq por ingestão, não existe segundo creio ainda informação suficiente relativamente ao risco do Urânio na água de beber poder provocar doenças de malignidade tão acentuada nas pessoas, como as que já referimos.

Ao terminarmos, não queremos deixar de referir que foi publicado, há alguns anos, existindo portanto entre nós um trabalho bastante interessante e bastante valioso relativo à radioactividade em águas minerais portuguesas, feito no Departamento de Protecção e Segurança Radiológica.

De acordo com o que nele se refere, existem cerca de 55 fontes de águas, termais, minerais e de mesa, usadas quer em tratamentos médicos quer mesmo no consumo através dum circuito de comercialização diferente, quiçá, do que já fizemos referência anteriormente.

O trabalho, traça o panorama da radioactividade das águas de beber e insere os valores dos cálculos de dose atribuíveis à população, resultantes do seu consumo.

Foram processadas várias análises de 222Rn, 226Ra e 210Pb em amostras de águas colhidas de 24 fontes diferentes.

As conclusões do trabalho permitem dizer que as doses atribuíveis ao consumo de algumas águas de mesa e minerais, podem ser significativas.